Amanda Sul's profileAo vencedor, as batatas!BlogLists Tools Help

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    March 21

    De mudança

    Acesse meu novo cantinho: www.amandasul.com
    August 11

    Até onde vai?

    O desconhecido tem uma aura, um encanto e todo um charme que te prende. É aquilo que te faz se mover de um jeito que você não se move, te faz falar de um jeito que você não fala, te faz sorrir de um jeito que você não sorri.
     
    Ele te explora em outras áreas, te descobre em outros cantos, te faz exalar outros cheiros. Te tira do padrão, te arranca do dia-a-dia, da sua própria rotina e do seu próprio ser comum. Te deixa leve e angustiado ao mesmo tempo, e nem por isso infeliz.
     
    Ele te faz andar mais devagar, te faz comer de outros jeitos, te faz respirar mais forte. Ele te encanta por despertar em você algo que você mesmo não sabe o que é, o que você nem sabia que tinha e que agora você quer saber até onde vai.
     
    São outros papos, outros movimentos, outros comportamentos, outras reações de mesmas ações. É o não saber tudo, o não entender completamente, o descobrir quase que permanente.
     
    Até que um dia, inevitavelmente, o desconhecido se trasforma em conhecido.
    E, na maioria das vezes, as coisas se perdem no meio do caminho e você nem lembra mais o que tanto te encantava ali.
     
    É mais o prazer de descobrir do que a própria descoberta. Vai entender esse tal de ser humano.
    May 24

    Sandálias da humildade

    Lembro que na minha época de segundo grau, o coordenador da minha escola vivia nos alertando sobre a competição. Ele dizia que o mesmo amiguinho de sala que estava ali batendo papo com você no recreio era aquele que tomaria sua vaga no vestibular.
     
    Competição, competição, competição. Nunca fui fã de competições. Não sou chegada a esportes coletivos, rankings, nem nada que coloque alguém em primeiro lugar. Afinal, se alguém chega em primeiro, outro alguém chega em último. Sempre gostei de brincar, pelo simples prazer de me divertir e não de vencer. Acho que, melhor do que um contra o outro, ganhamos mais se trabalharmos juntos.
     
    Algumas pessoas vivem assim. Tudo é uma questão de vencer. Dizem que a vida é um jogo, um reality show eterno. Ainda não descobri qual o prêmio. Nunca encontrei nada que valesse uma disputa. Mas algumas pessoas encontraram. Competem em jogos, em brincadeiras, em apostas, em amizades, no amor, em reuniões familiares.
     
    Venci você no boliche. Fiz 576 pontos e você nem fez um strike. Tá fraquinha hein? Fiz um gol contra você naquela quarta-feira de noite, em 1956. Consegui ficar com aquele menino que você queria. Tenho mais amigos no Orkut. Sou mais magra que você. Tirei dez naquela prova que você tirou seis. Você ganhou no videogame, não quero mais jogar. Ih, seu salário é só isso? Eu ganho mais e trabalho menos! A regra do Imagem & Ação não é essa. Diz aqui no 4.5.7 que é do jeito que eu falei. Venci.
     
    Pessoas altamente competitivas são assim.
    Eu versus você.
     
    Sabe aquele ditado "Bom de briga é aquele que cai fora"? Pois então, sou grande adepta dele. Se eu ganhar, bem; se não ganhar, bem também. A arte está em não só saber perder. É preciso saber ganhar, ser humilde, ser sutil. Nem tudo na vida é ganhar ou perder. Nem tudo está em jogo.
     
    Saber andar lado a lado é mais difícil do que parece.
    May 08

    Vá ao Theatro e me chame!

    Ontem tive a felicidade de ir ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro assistir a Orquestra Sinfônica Brasileira
    tocando "Assim falou Zaratustra", de Strauss, e a sinfonia nº 40, de Mozart, no projeto chamado "Concertos da juventude - 440 vibrações por minuto" que visa a formação e conquista de platéias.
     
    Como uma má carioca que nunca foi ao Pão de Açúcar, eu também não tinha ido ao Theatro Municipal. Mesmo babando por sua fachada majestosa em plena Cinelândia e tendo suas escadarias como ponto de encontro, ele nunca fez parte dos meus programas culturais - até hoje.
     
    Ao entrar naquele monumento inspirado no L´Opéra de Paris, o encanto pelo interior luxuoso hipnotiza. Os raios de sol passando por seus vitrais alemães, o mosaico italiano do piso, suas pinturas e esculturas e, claro, seu colossal lustre, logo fazem o queixo de qualquer ser pensante cair antes mesmo do espetáculo começar. 
     
    Ouvir o Hino Nacional tão maravilhosamente tocado já conquista. Conhecer de forma didática um pouco de alguns instrumentos e da própria Orquestra também é muito interessante. Ouvir os tambores rufando para a composição que deu origem à trilha tão famosa de "2001 - Uma odisséia no espaço" arrepia. Apreciar Mozart tão bem representado pela Orquestra Sinfônica Brasileira me fez ouvir hoje outras tantas de suas sinfonias. Para sair de lá mais feliz do que eu, só mesmo sendo um daqueles poucos espectadores que tiveram a oportunidade de sentar ao lado dos músicos, em pleno palco, como parte da estratégia do projeto. 
     
    A apresentação, feita pelo próprio regente Roberto Minczuk é ótima. Dá um ar descontraído, alcançando o objetivo de aumentar os interessados no Theatro Municipal e, principalmente, em música clássica. Sua companheira de apresentação, Heloísa Fischer, infelizmente é a única que não deveria estar ali. Certamente seu trabalho como fundadora e editora do guia VivaMúsica! é importante, mas sua relevância no palco é zero.
     
    Assim que a Cidade da Música Roberto Marinho, localizada na Barra da Tijuca, estiver pronta, também
    poderemos apreciar a Orquestra Sinfônica Brasileira lá. A Cidade da Música, além de contar com a maior sala de concertos sinfônicos da América Latina, será sede da OSB.
     
    Tão acessível, tão encantador, e a maioria dos cariocas ainda não se deu essa oportunidade. Criticar a prefeitura é fácil nos dias atuais, mas, nesse caso, podemos elogiar. Os preços populares - cerca de três reais com direito à meia-entrada - é um grande incentivo para o público e uma enorme contribuição à vida musical da nossa cidade.
     
    É muito bom analisar o público e encontrar cabecinhas brancas, adultos e jovens. Mas, com exceção de algumas crianças que não estão preparadas para nenhum tipo de espetáculo por pura falta de educação, é fascinante ver alguns pequenos seres perdurados nas sacadas, curiosos com o que se vê e capazes de se divertirem em algo além de brinquedos e tevês.
     
    Hoje tem a Ópera Idomeneo, de Mozart. Estarei lá às 20h. Vamos?
    May 02

    Reféns

    Não abra e-mails de remetentes desconhecidos. Não clique em mensagens com links do msn. Não fale onde mora, onde trabalha nem o seu telefone. Cuidado com as fotos que você disponibiliza na internet: montagens maldosas de você podem ser feitas.
     
    Não aceite nada de um estranho. Cuidado com o seu copo de bebida em boates. Não destrate um garçom ou então ele cuspirá no seu prato. Não ande sozinho na rua durante a noite. Não pegue um táxi de uma compania que você não conheça.
     
    Se você não comer tudo, o homem do saco vai te pegar. Se fizer malcriação, vou te levar pra tomar injeção. Vou te colocar na Febem se você repetir de ano. A boneca da Xuxa vai andar durante a noite, vai tirar uma faca de dentro de si mesma e vai te matar enquanto você dorme. Nunca repita aquelas três palavrinhas na frente do espelho.
     
    Olha o sapinho, olha a hepatite, olha a gripe, olha os micróbios. Olha a seringa contaminada com AIDS na cadeira do cinema prontinha pra espetar sua bunda. Cuidado pra não dormir com um desconhecido e acordar numa banheira de gelo sem um rim.
     
    Não durma de janela aberta. Deixe pelo menos uma luz acesa durante a noite. Tranque a porta. Olha a grade na janela. Fique na beirinha do mar ou você pode ser arrastado e morrer afogado. Trave as portas do carro, feche as janelas. Os ETs vão nos pegar pra fazer experiências. Os espíritos vão puxar o nosso pé durante a noite.
     
    Zelo ou cultura do medo?
     
    Medo de barata, medo de dentista, medo de macumba, medo de altura, medo de avião, medo de Deus castigar, medo de trocar a marca do sabão em pó.
    Medo de sofrer, medo de perder, medo de amar, medo de tentar, medo de mudar.
    Medo de si mesmo e das pessoas. Medo de sentir medo.
     
    A família, a sociedade, a violência e a ignorância colocam tantos medos na gente que vamos vivendo cercados pelas proibições e pelas excessivas precauções de algo que na maioria das vezes não é real. O medo que sentimos nos impede de coisas ruins de fato ou ele apenas nos paralisa nas situações?
     
    É hora de olhar embaixo da cama, acender as luzes, abrir os armários. Não há monstro nenhum.
    Do que você tem medo? Do que o medo te impede?
    Liberte-se!
    April 18

    Não adianta vir com guaraná pra mim

    Se a história religiosa da Semana Santa não faz muito sentido na minha cabeça com suas proibições, jejuns e filmes na sessão da tarde, pelo menos tenho bons motivos pra ficar feliz com a sua chegada: os chocolates.
     
    Na época em que eu era da altura da maçaneta de uma porta, já ficava ansiosa pela Páscoa. Fuçava todos os armários da casa e só sossegava quando encontrava o tal esconderijo que a minha mãe jurava ser impossível de ser descoberto. Que nada. Até hoje escalo uma porta de armário como ninguém. Tem que ver.
     
    Não chego a ser uma chocólotra porque sou bem controlada. Mas preciso confessar que gosto muito de um mousse, de uma torta, de um fondue, de um chocolate quente, de um sorvete de chocolate com calda de chocolate e, claro, de um ovo de Páscoa. Fico radiante ao entrar num supermercado e dar de cara com aqueles corredores de ovos flutuantes.
     
    O ovo de Páscoa tem toda uma graça. Tem aquele formato, aquela forma de abrir que você pega as duas bandas e puxa com cuidado pra não quebrar, aqueles bombons dentro, aquele papel que faz um barulho delicioso de infância. Adoro o ovo de Bis, o Diamante Negro, o Crocante. Já os bombons, adoro Serenata de Amor, Milkbar, Sem Parar, Twist, Baton, ai, ai... Ô seretonina boa. Até o Alô Doçura naquela nova embalagem projetada pelo filho do dono da Garoto é uma delícia. Não tenho muitas exigências em relação ao chocolate, só não me venha com chocolate branco e seu gostinho de leite em pó.
     
    Mas, de fato, esse é um dos poucos aperitivos do mundo dos doces industrializados que me agrada. Não aguento ficar mascando um chiclete por horas sem engolir e que, convenhamos, não tem um gosto muito agradável. Também nunca fui formiguinha de bala. No máximo, como vez ou outra aquelas de caramelo que grudam no dente. Mas só se me oferecerem ou se eu encontrar na saída da churrascaria.
     
    Só sei que não tem frustração maior do que chegar numa festinha e dar de cara com um bolo de coco ou uma torta de morango. Tudo bem que sempre tem alguém que não gosta como comprova a comunidade "Eu odeio chocolate" do Orkut, com 729 membros. Mas veja só a oposição: 1.225.277 participantes na "Eu amo chocolate".
     
    Pois é, somos maioria.
    No seu aniversário, compre um bolinho de chocolate. Além de mais gostoso, é mais seguro.
    April 13

    Como você vê sua vida daqui a 5 anos?

    Lá está você, recém-formada, doida pra colocar em prática as trilhões de coisas que você ouviu durante quatro anos na faculdade, desempregada, sem dinheiro pra comprar nem um coelhinho de chocolate na Páscoa e vem aquela pessoa, especializada em fazer perguntas difíceis, que te deixam sem saber aonde exatamente eles querem chegar.
     
    Como eu vejo a minha vida daqui a 5 anos? Ô perguntinha mais intrigante de RH.
     
    Bom, se eu não quiser pedir ajuda a uma cartomante ou decifradora de borras de café, eu só posso mesmo é fazer uma análise dos meus atos e colocar minha imaginação pra funcionar.
     
    Eu sou bastante otimista quanto ao meu futuro. Acredito que estou andando no rumo certo para ter a vida do jeitinho que eu desejo. Mas como eu me vejo?
     
    Me vejo com pelo menos umas duas pós-graduações na minha área. Me vejo fazendo outra faculdade, pela sede do saber mesmo. Eu faria História. Faria Letras. Faria Gastronomia. Faria Design. Talvez um dia eu faça tudo, quem sabe?
     
    Me vejo falando mais uma língua - francês provavelmente. E já quero ter morado um tempinho fora, em países que falem as línguas que eu já sei.
     
    Em cinco anos, me vejo trabalhando numa empresa que eu realmente me sinta satisfeita, ganhando dinheiro suficiente pra que eu possa começar minha vida. Me vejo com meu próprio carro, já escolhendo a minha casinha onde terei um cômodo só pra minha própria biblioteca, com livros que eu já li ou escrevi.
     
    Daqui a cinco anos, quero já ter acampado em Macchu Picchu e mergulhado na Chapada Diamantina. Quero já ter andado de helicóptero e de balão - um balão bem colorido, num céu cheio de nuvens fofinhas. Quero já ter pulado de asa-delta. Quero ter aprendido de vez a nadar, fazer bolinha de chiclete e a tocar algum instrumento.
     
    Cinco anos. Parece que não é nada, mas terei 27 anos. Há cinco, eu tinha 17.
    Eu não tenho problema nenhum com o envelhecimento. Não troco meus 22 aninhos por dia nenhum dos meus 17. Essa fase da adolescência é muito gostosa, mas a cabeça que tenho hoje só me leva pra lugares maravilhosos. Eu sou uma pessoa completamente diferente, não tenho do que reclamar. Imagina só daqui a mais cinco? Imagina o quanto eu vou ter crescido, amadurecido e, o melhor, aprendido?
     
    Por que iria ter medo de crescer?
     
    Que venham todos os próximos anos!
    Porque eu tô pronta pra todos eles.
    April 05

    Qual seu filme preferido?

    Eu acho uma tremenda dificuldade escolher os melhores de alguma coisa. Melhores filmes, melhores livros, as
    comidas mais gostosas, as cores preferidas.
     
    Aqueles caderninhos de pergunta da nossa adolescência que eram o bicho. Adolescentes cheios de hormônios
    saltitando podem ser criaturinhas com perguntas bem complicadas de se responder. Eu, aliás, adorava perguntar, mas minhas respostas sobre os preferidos eram sempre bem vagas.
     
    Mas, isso se deu com certeza porque eu ainda não tinha assistido metade do que eu já assisti hoje em dia. Dos meus 15 anos pra cá, posso dizer que minha mente e minha vida sofreram uma enchente de coisas novas - e o melhor - de coisas boas! Quem disse que aquela era a melhor fase da vida se enganou redondamente, pelo menos no quesito cultural. É muito bom ter os primeiros beijos e as primeiras saidinhas, mas definitivamente os primeiros filmes, livros e comidas não são de uma qualidade que se possa levar em conta.
     
    Hoje em dia tenho uma lista simpática de coisas preferidas e, apesar de incompleta devido à minha mente incapaz de gravar tantos dados, me sinto satisfeita por tê-la, mesmo que em fragmentos. Não sei para que ela me é útil já que não existem mais cadernos de perguntas na minha faixa etária, mas, deve ser para isso que serve o Orkut.
     
    Voltando à raiz principal desse texto, o fato é que, se eu sempre achei difícil escolher os prediletos, quem diria
    eleger um só, aquele único que representaria o filme que mais gostei até hoje.
     
    Mas não, não é dificuldade nenhuma. Eu posso afirmar sem pestanejar, de todos os trilhões de películas já
    assistidas, qual foi o melhor que eu e minha pipoca com leite condensado já assistimos.
     
    E por quê? O que faz um filme ser meu predileto?
    Eu diria que, além da história, dos personagens, da fotografia e da trilha sonora que não pára de tocar na minha playlist, o meu filme predileto só poderia ser aquele que causa alguma reação em mim. Aquele que traz uma identificação, que me tira um pouquinho da realidade nua e crua e me transporta pra um mundinho de sonhos e coisas bonitas.
     
    O meu mais-mais é "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain". Um belo dia, depois de rodar pelos corredores sem fim da Blockbuster e achar que não tinha nada de mais interessante, resolvi ceder aos comentários de duas amigas já encantadas pelo filme e alugá-lo. Logo aquele dvd fora de catálogo, com cara de largado na prateleira, como se ninguém quisesse assisti-lo.
     
    Eu me apaixonei em dois segundos de filme e assisti três vezes no mesmo dia.
     
    O filme fala sobre pequenas coisas. E eu tenho a capacidade de ser feliz com coisinhas que aparentemente não valem nada. Dormir numa cama com o lençol esticado me faz feliz. Ver que está saindo aquela fumacinha de frio pela boca me faz sorrir. Encontrar no chão uma folha de árvore em formato de coração me faz guardá-la na carteira. Eu não passo despercebida por isso. Eu não preciso de nada grandioso pro meu dia se tornar especial. Sorrir é muito fácil pra mim.
     
    O meu filme preferido é muito mais do que uma história de amor. Ele retrata bem aquilo que temos todos os dias, mas que a maioria das pessoas não dá valor. É uma demonstração de como a felicidade está sim em coisas simples como enfiar a mão num saco de grãos, quebrar a cobertura do "crème brúlée" com a colher e jogar pedrinhas no rio.
     
    Outro lado interessante é mostrar que o seu passado e seu presente podem não ser tão perfeitos como você gostaria, mas isso não quer dizer que você tenha que seu tornar uma pessoa amarga. Amélie cresceu sem amigos, com um pai distante e é garçonete. Mas, mesmo assim, cultivou seu mundo de sonhos bons, onde um disco de vinil é feito como a massa de crepe.
     
    Parece bobinho pra você? Pra mim, não. Os problemas não podem ser responsáveis por tornar você alguém de braços cruzados para o mundo. A gente é quem dirige o filme da nossa vida. Nós somos responsáveis por torná-la um drama, um terror ou uma comédia romântica.
     
    Outra coisa que muito me agrada no filme é que ele mostra como todos temos a capacidade de melhorar o dia das outras pessoas. Você pode não resolver todos os problemas de alguém, mas pode sim contribuir para que o dia desse alguém seja um pouco mais feliz. Qual foi a última vez que você ajudou um "ceguinho" a enxergar as coisas da vida? Qual foi a última vez que você trouxe um pouco de esperança a um coração doído?
     
    Também não posso esquecer outro grande aspecto de identificação com a personagem e seu estilo de vida: sua incrível criatividade para criar coisas para outras pessoas. Eu acredito que isso é um dos meus dons. Eu poderia fazer uma imensa lista de lembrancinhas que já fiz pras pessoas que eu gosto e que as deixaram boquiabertas com tamanha imaginação.
     
    Enfim. Esse filme francês, dirigido por Jean-Pierre Jeunet e que tem como Amélie Poulain a atriz Audrey Tautou me encanta, me faz dançar no ar ao som de "La Valse d'Amélie" e me faz esquecer um pouco o mundo lá fora e voltar um pouco ao meu mundinho de sonhos.
     
    Assista, e volte também ao lugar mais puro do seu coração.
    March 30

    Tapem os ouvidos

    É isso aí, como a gente achou que ia ser. Você é um negão de tirar o chapéu, não posso dar mole se não você créu. Ela só pensa em beijar, beijar, beijar, beijar. Tô ficando atoladinha. É mugégé, é mugégé. Ela quis amor, eu quis só prazer. I'm playing the game. Abalou, abalou, sacudiu, balançou. I'm mr. Lonely, I have nobody.
     
    Esses são os hits do momento. Confesso que até busquei uma letra da tal banda revelação do ano - Calypso - mas, por falta de conhecimento, não pude escolher a mais cantada.
     
    É só isso que escuto nessas ruas do meu Rio de Janeiro. Ônibus, padaria, academia, caixinha de som do centro comercial, rádio, loja que vende cd.
     
    O gosto musical não é a questão. Todo mundo tem o direito de gostar de qualquer coisa. O fato é: serão essas as tops, as melhores, as mais ouvidas, as mais pedidas? Por que diabos eu só escuto essas porcarias por aí? Não tem nada melhor nessas bandas, grupos, pessoas portadoras de um microfone?
     
    "Sorte grande" foi a melhor música do cd da Ivete na época em que essa era o "must" da estação? Era a melhor letra, a melhor melodia, o melhor uso da voz dessa mulher? A Tati Quebra Barraco merece esse destaque todo? "Na madrugada boladona, sentada na esquina" é o melhor verso de todas as músicas que ela já gravou? "Vai rolar bundalelê" virou mesmo um jingle de comercial?
     
    Alguém deixa tocar isso numa rádio dentro da própria casa? Paga-se por um cd desses? Há um ser não-alcoólico que dance essas melodias? A fulaninha estica o braço no meio da boate e canta com todo o ar dos pulmões exclamando: "- Eu amo essa música!" pra essas músicas? Será que o mundo enlouqueceu mesmo?
     
    Tudo bem, pode existir uma razão pra isso tudo.
    Sabemos que não necessariamente o que vai pra mídia é o melhor da banda.
     
    Os Rolling Stones, por exemplo. A Globo anunciou o show trezentas vezes. A única música de referência era
    "Satisfaction". Nirvana quando toca na rádio é "Come as you are". Só. Los Hermanos? Se passar reportagem sobre, é Anna Júlia de fundo. Beatles? "Yesterday" ou "Twist and shout". Malditos cantores de pizzaria.
     
    Se assim acontece com essas excelentes bandas, poderíamos acreditar que uma rádio ao escolher "Glamourosa, rainha do funk" como parte do top 5 do dia, só não foi feliz na sua escolha. Poderíamos acreditar que o Mc Marcinho tem méritos e que bastaria desbravar seu cd para descobrir algo interessante. Poderíamos justificar com qualquer coisa em vez de dizer que a música é realmente podre.
     
    Mas, infelizmente, sou levada a confirmar minhas suspeitas.
    É gente. Peço desculpas aos fãs de "Tô solteiro em Salvador, cadê o meu amor?".
     
    Bob Marley não merece isqueiros acesos só em "No woman, no cry". Nando Reis não se resume em "Por onde andei". No Doubt não acabou em "Don't speak". Mas o Ultraje a Rigor cantando "Todo mundo gosta de mim"... Dá pra levar a sério? Convenhamos.
     
    Toda essa revolta tem um motivo. Feliz, até.
    Hoje eu entrei numa van e o motorista colocou, voluntariamente, um cd do Pink Floyd.
    Eu tive que parabenizá-lo. Foi mais forte do que eu.
    O mundo ainda tem salvação.
    March 20

    O gato comeu a minha língua

    Eu não sei iniciar conversas com completos desconhecidos. Eu não falo sobre o calor com as pessoas do elevador. Não comento sobre o trânsito no ônibus. Eu não conto a minha vida pro cabeleireiro.
     
    Eu não sou uma pessoa extrovertida, fato. Falo menos que a maioria e escuto mais do que a maioria. Eu adoro o silêncio, inclusive. Mas eu não tenho problema algum com isso. As pessoas que parecem se incomodar.
     
    Nesse fim de semana, saí pra beber com mais quatro meninas. Quatro meninas extrovertidas e tagarelas. Lógico que eu ia ouvir as típicas frases de tiozão incoveniente que sempre se repetem quando estou num ambiente com pessoas que falam bem mais do que eu.
     
    Será que a pessoa que vem com o bordão "Nossa, você fala taaanto!" nunca parou pra analisar que isso é a coisa mais chata de se dizer? E que esse tipo de coisa nunca vai fazer com que eu fale mais?
     
    As pessoas têm mania de medir o mundo tendo si próprio como referência. Se uma tal tagarela fala pelos cotovelos, como assim essa outra aqui não fala? Como assim essa aqui não fala do que comeu, do namorado que é assim, da família que fez assado?
     
    Alô, alguém já deu "viva" às diferenças hoje?
    Tem gente que fala mais, gente que fala menos. Tem gente que é preto, gente que é branco. E é assim que a vida anda. Por que todo mundo tem que ser igual, falar igual?
     
    Eu gosto de observar e amo escrever, muito mais do que falar. Claro que eu também falo, e muito às vezes. Eu sou uma pessoa com muito assunto. Mas com as pessoas certas, nas horas que tenho vontade, sobre as coisas que eu acho que devo falar. Eu não saio falando das minhas alegrias nem das minhas tristezas aos quatro ventos.
     
    Se eu estou de boca fechada é porque, com certeza, não tenho nada de interessante pra dizer. Ou o assunto não me interessa ou é a pessoa que não é interessante pra mim. Pode ser também que eu ainda só não me sinta à vontade com você. Ou vai ver é porque a pessoa fala tanto que não dá espaço pra que outras falem também.
     
    Eu me considero bem atípica, é verdade. Eu não gosto do que a maioria gosta. Não falo de Big Brother, novela, nem homem gostoso. Não gosto de boate, não escuto música que toca no rádio, não tenho a calça jeans do lugar que todo mundo tem. Nada disso me interessa. E falo pouco, verdade. Eu nunca poderia trabalhar em telemarketing.
     
    Pode parecer complicado pra quem não é assim.
    Mas não se assuste com o meu jeitinho diferente do seu. Eu sou muito feliz em ser assim!
    February 16

    Cresça!

    Quando eu paro para analisar a minha vida, fico feliz de ver quantas coisas já fiz. Quanto nascer do sol eu já assisti, quanta estrela cadente eu já apontei, em quanto mar eu já molhei os pés.
     
    Já vi tanto filme que me enriquece, tanto livro que me emociona, tanto cachorro de rua que me cumprimenta. Já fui personagem principal de muita cena de vida linda, típica de um oscar para fotografia.
     
    Eu posso dizer que me sinto realizada de transformar a minha vida, aos poucos, na vida mais feliz que eu poderia querer.
     
    Encontrei essa semana um livrinho perdido aqui em casa, chamado "Pequeno manual de instruções para a vida", de Jackson Brown, que contém dicas de como se levar uma vida gratificante. Eu lembro de tê-lo lido quando ainda era uma menininha e não tinha capacidade pra entender o tamanho de cada ensinamento. Apesar disso, sou capaz de me julgar pronta pra fazer um livro como o dele, com coisas que aprendi a dar valor na vida.
     
    Tenho cães, olho as pessoas nos olhos, canto no chuveiro, tenho ótimos livros, ótimos discos. Sou a pessoa mais sorridente que conheço, sempre gasto menos do que eu ganho, faço trabalho voluntário, faço novos amigos, tenho velhos amigos, sei guardar segredos, sei ouvir, tiro montes de fotografias, amo muito as pessoas e digo isso a todas elas.
     
    Sempre jogo lixo no lixo, nunca ando na contramão pra fugir de um engarrafamento e da minha boca você nunca vai ouvir uma palavra a favor de preconceitos. Não roubo em jogos, não tenho ambições relacionadas a dinheiro e sempre uso o cinto de segurança.
     
    Um telefone tocando não interrompe minha vida para que eu corra e vá atendê-lo, eu não sou a primeira a soltar os braços de um abraço, eu dou tchauzinho pras crianças nos ônibus escolares, eu não exponho minhas vitórias nem minhas derrotas, não aperto a descarga de um banheiro público com a mão.
     
    Se eu caio, eu rio e levanto em seguida. Eu vario meus caminhos diários, eu lambuzo a pipoca com leite condensado sem culpa. Eu cato conchinhas e desenho na areia.
     
    Minhas gavetas estão sempre arrumadas, sei perdoar meus erros e aprender com eles, sei perdoar os erros dos outros e aprender com eles. Eu cheiro flores, aperto o pão quentinho na padaria, evito refrigerantes e carne vermelha. Eu acredito em milagres, aprecio a comida que vem da terra, a energia que vem do mar, o cheirinho da chuva.
     
    Mesmo sem ter o livrinho na cabeceira da minha cama nesses últimos anos, posso dizer que segui muito bem pelos meus caminhos. E deixo pra vocês um dos melhores conselhos de Brown: "Assuma consigo mesmo o compromisso de estar constantemente melhorando".
     
    Somos seres inacabados, ainda não prontos, não terminados - como diria Guimarães Rosa.
    Construa-se.
    February 09

    Segunda-feira eu começo

    Nada nasce do ócio. O ócio é um círculo vicioso. Não tem vontades, não tem criatividade, não tem inovações. É sempre a mesma coisa - chata, parada, inoperante.

    Pra alguma coisa começar a mudar, é preciso atitude, movimento, pró-atividade. Se alguma coisa cai do céu, com certeza não deve ser nada de muito bom.

    Esse blog anda no ócio. Por mais que um blog não tenha a obrigação de estar sempre atualizado, ele precisa estar. E eu tenho tanta coisa pra escrever, pra passar pros outros, pra criticar, pra opinar. Mas se eu não estiver disposta a isso, se não assumir um compromisso comigo mesma, nada vai acontecer.

    É isso com muitos aspectos da nossa vida. Há uma série de coisas que precisamos e devemos fazer todos os dias. Mas se não tivermos essa consciência, vamos ficar apenas empurrando os dias com a barriga, até percebermos que não fizemos nada com nossos dias.

    São dietas, entradas na academia, mudanças de caráter, busca por empregos, planos de parar de fumar, de estudar mais. Mudanças, guinadas na vida. Tudo sendo empurrado pro dia seguinte. Amanhã eu faço, amanhã eu faço, amanhã eu faço. Mas o amanhã nunca chega.

    É um ano novo. Todo dia é um dia novo. Toda hora é uma hora nova.
    O que você vai construir pra sua vida hoje?
    December 22

    Noite feliz

    Nessa época de natal, a única coisa que parece ter importância é o ato de comprar. Os adultos só falam de presentes e comidas. As crianças, só sabem sonhar com o tal papai noel e aquele saco recheado de brinquedos onde os melhores geralmente são os mais caros.
     
    Um dias desses vendo tevê, fiquei besta com aquele apresentador do Shoptime, o Ciro Bottini. Ao parar no canal, a única coisa que ouvi foi: "Comprem, comprem, é natal!", com aquela voz estridente que só ele é capaz de fazer, quase como um mantra do consumo.
     
    Sei que muitas vezes pareço radical com minhas posições anti-consumo. É claro que eu gosto de ganhar presente, mas continuo tendo como meta o desapego a esses supérfluos e acho que um dia, eu realmente terei me desprendido disso.
     
    A lembrança, a presença e o abraço são coisas que não são compradas em qualquer esquina numa noite de natal. Eu agradeço muito por poder ter em minha casa pessoas com quem me importo e que com certeza valem mais do que qualquer embrulho.
     
    Natal é mais do que isso que mostram na tevê. Busque por um natal que se sente, mas que não se vê nesse dia 25. Nada que vale realmente a pena cabe numa caixa de presente.
     
    Entre tantos pacotes na sua árvore, encontre sua paz interior. Perdoe aquele seu amigo, converse horas com a sua avó, abrace sua mãe como há muito tempo você não faz, diga ao seu pai o quanto você o ama. Leve seu cachorro pra passear na rua, leve um pratinho de rabanada pra aquele mendigo que sempre está sentado no mesmo lugar... Tenho certeza que assim sua noite realmente será uma noite feliz.
     
    Feliz natal pra todos!
    December 13

    Ainda é tempo de crescer

    Crescer por fora é difícil. É trocar lancheiras por mochilas, mochilas por bolsinhas de marca, bolsinhas de marca por pastas com divisórias. É largar bonecas por homens, pelúcias por lava-louças, pique-esconde pela fila do metrô. É deixar de comer besteira por causa da sua saúde e não por causa da sua mãe. É dar gorjeta pra sua manicure preferida.

    É ser chamada de "tia" na rua, é ver que daqui a três anos a sua idade já vai estar estampada em revistinhas femininas com uma indicação de creme anti-rugas. É ver a necessidade de se portar como adulto quando você ainda se sente uma criança por dentro.

    Mas, mais difícil do que crescer por fora, é o crescimento de dentro. É se preocupar com a sua evolução pessoal e mental, se abrir para novos pensamentos, novas atitudes. É se livrar de vícios, pré-conceitos e rédeas que a vida te coloca ao longo dos anos.

    É superar defeitos, lutar com seus dragões interiores e se tornar uma pessoa melhor. É largar da barra da saia da mãe, assumir o volante da própria vida e seguir em frente. Olhar pra trás, só se for pra ajudar a ir pra frente. É aprender a se amar de verdade, a perdoar, a desapegar, a esperar, a esquecer.

    Crescer por fora é inevitável, não tem jeito. Por mais que você queira ser um eterno garotão, não dá. Um careca soltando pipa sempre será um careca soltando pipa.

    E crescer por dentro? A vida vai te cobrar, mas você pode escolher não fazer. E assim, ter as mesmas visões que tinha há 10 anos, se tornando alguém careta - no pior sentido da expressão. Alguém que faz a mesma coisa, dias a fio, e resiste a qualquer sinal de mudança. Anda sempre do mesmo lado da calçada, usa sempre o cabelo do mesmo jeito, compra roupa sempre no mesmo lugar.

    Alguém que nunca se preocupa em olhar pra dentro de si e tudo que fala gira em torno de coisas passageiras. Que foge dos seus medos, que se esconde no passado e fecha os olhos para seus defeitos.

    Essa escola da vida te reprova até nas matérias que você achava já tirar de letra. Mas compensa tanto na hora que você é aprovado e vem aquela estrelinha de "parabéns" colada do lado da sua nota..

    E quando você acha que já aprendeu tudo, lá vem aquela lição de vida tirada não sei de onde, lá vem aquele desafio, lá vem aquela prova.

    E que venham todos os desafios e todas as provas! Porque eu não estou aqui a passeio mesmo!

    December 09

    Dia de discurso

    Hoje sinto em mim a emoção da despedida. Hoje é um ponto de chegada e, ao mesmo tempo, ponto de partida. Agora já podemos contemplar um horizonte. Não que isso signifique a finalização de nossas vidas. É, sem dúvida, uma conquista. Mas jamais será tudo!

    Seremos sempre eternos sonhadores a vislumbrar o futuro. Enquanto estivermos tentando, estaremos felizes. Lutando pela definição do indefinido, pela conquista do impossível, pelo limite do ilimitado, pela ilusão de viver.

    Quando o impossível torna-se apenas um desafio, a satisfação está no esforço, e não apenas na realização final. O que importa não são os rituais de passagem, mas tudo que fizemos para chegar até eles.

    É preciso encontrar as coisas certas da vida, para que ela tenha o sentido que se deseja. Assim, a escolha de uma profissão também é a arte de um encontro, porque uma vida só adquire vida, quando a gente empresta nossa vida, para o resto da vida.

    Que sejamos livres para ser o que somos e que possamos ser mais do que sonhamos!

    (Meu discurso de formatura, 8/12/2005)

    November 30

    Era uma casa muito engraçada...

    Graças a um trabalho de faculdade onde o objetivo era produzir um documentário sobre o salário mínimo, pude conhecer de perto a realidade de muitos brasileiros.

    Ao andar pelos corredores da comunidade, localizada num brejo que afunda dia a dia, fui constatando o que eu já sabia a respeito das condições precárias em que vive muita gente. Casas feitas de madeira e papelão, com dúzias de crianças, mulheres desempregadas, geladeiras vazias e pais que se desdobram para não deixar que ninguém passe fome.
     
    Mas, em meio a tanta pobreza, num lugar que deveria transbordar de tristeza, vemos meninas e meninos que abrem largos sorrisos, com abraços apertados e sonhos de um futuro melhor. Vemos cachorrinhos saltitantes em meio a brinquedos velhos organizados e imagens de santinhos, com pais de família orgulhosos que abrem as portas de suas humildes casas para que possamos entrar.

    Essas famílias nos recebem com uma atenção impossível de encontrar em qualquer casa de classe média. E ao entrar, meio sem jeito, percebemos o quanto são felizes essas pobres pessoas que têm um sofá de três lugares e uma casa com seis pessoas. Todos se amontoam uns em cima dos outros para ver a novela, numa alegria sem tamanho.
     
    O que vemos ali é uma felicidade que nada se parece com os sorrisos forçados de algumas famílias insossas com adolescentes preocupados com roupas de marca e pais que vivem na base de anti-depressivos, onde cada um assiste televisão em seu próprio quarto, numa casa tão a grande a ponto de ninguém se encontrar.
     
    Essas casas humildes, feitas com muito esmero, como na música de Vinícius de Moraes e Toquinho, infelizmente não são encontradas apenas na Rua dos Bobos. A cada esquina do nosso Brasil encontramos um lugar assim, que vai sobrevivendo de forma injusta, mas que irradia o prazer da felicidade nas coisas simples.
    November 06

    Ciclos

    Em novembro de 2003, quando comecei a estagiar no iBest, eu nunca imaginaria ficar tanto tempo no mesmo lugar. Lembro que quando recebi o calendário de 2004, pensei: "sei que não vou ficar todos esses meses aqui". Mas os doze meses passaram num piscar de olhos e, quando eu vi, já estava recebendo outro calendário, dessa vez o de 2005.

    Semana passada tive a notícia de que não receberei o terceiro calendário. A minha contratação, há algum tempo 99% certa, foi descartada. Como vocês viram nos jornais, o iG e o iBest vão se unir, não só em termos de conteúdo, como também na estrutura física. O iG, em São Paulo, será o novo local de trabalho.

    Depois de exatos dois anos, me despeço das milhões de coisas que me acostumei a fazer. Acordar sempre cedo e atrasada, ler o jornal durante o longo trajeto de uma hora e meia, saber o nome de todos os motoristas de van, chegar e cumprimentar todos os seguranças do prédio, passar crachás em sensores, tomar café, encher minha garrafinha de água e bater longos papos sobre tudo com o melhor chefe do mundo são algumas das coisas que sentirei muita falta.

    Pode parecer que não, mas essas coisas pequenas e diárias, depois de tanto tempo, se tornam muito especiais.

    Apesar da data de mudança estar prevista para dezembro, a minha despedida já aconteceu. A fim de dedicar mais tempo às minhas tarefinhas de final de curso - como monografia, comissão de formatura, provas, trabalhos e busca por um emprego -  antecipei minha saída.

    Outros acontecimentos já me fizeram sentir esse apertinho no coração e, apesar dessa saudade não ser mais novidade, ela sempre dói, mesmo que um pouquinho. É uma dorzinha de despedida, de mudança, de promessas de não perder contato, de novos ares, de novidade a caminho.

    Daqui a um tempo, essa dorzinha dará lugar a certeza de ter vivido mais um pouco, ter aprendido coisas novas, de saber que nada é eterno e o melhor: saber que eu estou preparada para os muitos ciclos que ainda virão.

    October 31

    Nossos bosques têm mais vida

    O Aldo Rebelo bem que tentou. É uma pena que o Brasil não valorize a própria cultura. Dia 31 de outubro é dia do saci-pererê, mas quem se lembra? Você viu alguma criancinha fantasiada de gorrinho vermelho na rua?
     
    O que eu vi foram meninas com chapéu de bruxa e meninos com aranhas pintadas nos rostos. Vi lojas decoradas com abóboras e morcegos. Recebi panfletos de festas que estarão recheadas de morcegos e bolas roxas.
     
    Essa é uma das coisas que eu não entendo. O nosso folclore é fantástico, criativo, cheio de personagens interessantes. É colorido, divertido e, o melhor de tudo: é brasileiro. Por que valorizar criaturas do além, numa festividade que não tem nada a ver com o nosso país?
     
    Já não basta sermos invadidos pela indústria estrangeira, por terminhos em inglês, um Jesus loiro, um papai noel de roupa vermelha e uma estátua da liberdade em plena Barra da Tijuca?
     
    Eu só posso encarar isso tudo como falta de incentivo das escolas, dos pais e do próprio governo de mudar essa situação. Duvido que as crianças não fossem receber iaras, curupiras, sacis e os outros seres da floresta de braços abertos.
     
    Sei que não devemos fechar as portas para influências externas que são positivas para o país. Mas nossa Constituição é clara quando diz que o Estado deve defender a cultura nacional. E nós também devemos defendê-la. Mas isso acaba sendo só mais um valor perdido no meio de tantos outros, com indivíduos mais padronizados e uma sociedade manipulada, voltada para o consumo.
     
    Já passamos por essa desvalorização antes. E nada aprendemos.
    Continuamos sendo pobres índios trocando ouro por miçangas coloridas.
    October 06

    Superior (quase) completo

    As escadarias da minha faculdade sempre foram palco para uma das cenas que eu mais sonhei fazer parte: turminhas sorridentes de beca e faixas coloridas, tirando fotos para o convite de formatura.

    Eu sempre passava por eles babando e contando quanto tempo ainda faltava para que eu fizesse parte daquele momento.

    E ontem, foi a minha vez. Minha vez de vestir a beca e conseguir me achar linda naquela burca preta de babador esdrúxulo. Minha vez de ficar feliz por participar desse ritual de passagem tão antiquado, mas tão emocionante. Minha vez de sentir aquele aperto no coração e ver que daqui a dois meses estarei formada.

    Foi a minha vez de me embrulhar na faixa azul - logo a minha cor preferida - que representa a cor do meu curso. O curso que abriu as portas para eu ser o que eu sempre sonhei: jornalista.

    Foi uma hora de sorrisos, fotos extras, planos e mais sonhos. Afinal, de que é feito o ser humano, a não ser de sonhos? E de que servem os sonhos, se não para serem realizados?

    Nesses últimos quatro anos, a palavra sonho se tornou sinônimo de objetivo. E agora entro na reta final para a realização de uma das coisas que mais quis até hoje.

    Talvez isso possa parecer um exagero. Hoje em dia é comum receber um canudo e ser enquadrado como determinado profissional em um sindicato. Mas pra mim, que sempre vi o jornalismo como mais que uma profissão, estar tirando fotos pro meu convite é uma realização mais do que profissional - é pessoal.

    O jornalismo é uma paixão minha. É a busca da verdade, é mostrar quantos lados existem numa mesma história, é quebrar preconceitos. É estar sempre em contato com o novo, com a informação, com as pessoas. É ler muito e escrever mais ainda. É saber muito de tudo ou tudo de algo. É a quebra do comum, é a criatividade, é a opinião.

    Além disso tudo, é utópico até. É um desejo de que os meios de comunicação venham a transformar nosso mundo num lugar melhor e assim, eu possa realizar outro sonho meu: o de fazer a diferença, um dia.

    September 27

    He shot me down, bang bang

    Em tempos de campanha a favor do desarmamento, com símbolos de paz e atores globais fazendo pose como se essa votação pudesse resolver algum problema relacionado à violência, é bom contar o que aconteceu hoje.
     
    Eu estava na van, indo pro estágio, lendo meu jornal. E em plena Linha Amarela, o tiroteio começou. Entre "meu Deus me ajuda", "ih, olha o trabuco dele" e "eu vou abaixar", eu continuei como estava. Depois que um cadáver que estava sendo velado foi baleado há uns meses, eu tive certeza de que ninguém está a salvo.
     
    Assim, o motorista deu um cavalinho de pau, cantou pneu pra bem longe dali e a paz provisória se reestabeleceu. E começaram as histórias. Nessa hora, todo mundo tem uma história pra contar.
     
    E nessas histórias, o elenco não é formado por crianças que encontraram uma arma na gaveta nem por psicopatas que até ontem pareciam normais e agora resolveram exterminar os pais.
     
    Os personagens eram os mesmos da minha história e provavelmente da história que você tem a contar: policiais e bandidos. Tão unidos que nem parecem ir um contra o outro.
     
    São esses caras que assustam a sociedade numa terça-feira, 8h da manhã. São esses caras que distribuem balas que se perdem até encontrarem mais um silva. São esses caras que, depois de todo mundo soltar pombas da paz, comemorando o sim à proibição da venda de armas, vão continuar cuspindo fogo pra cima de quem aparecer na frente.
     
    O que devia ser colocado em pauta é a existência das armas e não a venda delas para pessoas comuns.
    Mas não...
     
    É melhor desarmar a gente mesmo. É melhor controlar a imprensa, censurar nossos livros, ridicularizar nossa justiça, banalizar nossas leis, manter nossos políticos. É melhor cada um comprar logo um cabresto e se conformar em viver num lugar em que a gente é levado a acreditar que está lutando para um mundo melhor com ações como essa.
     
    E é assim.
    Seguindo a lógica dos que mandam, quanto menos resistência, melhor.